“Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus” (cf. Mt 21, 31).
Quero começar este artigo com esta frase de Jesus que está no contexto da parábola dos dois filhos que ele conta para desmascarar a hipocrisia farisaica do seu tempo (cf. Mt 21,28-32).
Ao falar do homem que tinha dois filhos e pede para ambos irem trabalhar em sua vinha, Jesus descreve o comportamento sincero de um, e a hipocrisia do outro. O primeiro ao receber o convite diz não, mas, se arrepende e vai. O segundo é aquele que quer fazer média, diz que vai, mas não vai. Aí a pergunta de Jesus: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” Claro que a resposta foi correta. O primeiro. Ao dizer a frase citada do versículo 31, Jesus os questiona porque eles não acreditaram na pregação de João, que estava em conformidade com a vontade de Deus. Enquanto que os publicanos e as prostitutas creram em João! Por isso, aqueles que eram considerados à margem da sociedade política e religiosa daquele tempo, pecadores púbicos iriam preceder muitos considerados “santos” e certinhos, freqüentadores assíduos do Templo, no Reino de Deus. Podem até ‘“morar” na Igreja, mas estão longe de conformar suas vidas com a vontade de Deus!
Será que em nossa sociedade contemporânea não é assim também? Sim, é até pior que no tempo de Jesus. E o que mais causa decepção é este tipo de atitude de quem se diz cristão praticante, seja católico ou de outras denominações cristãs, que acham que serão salvos por serem cumpridores de ritualismos, histerismos, repetidores de longas orações, mas, viver na prática cotidiana, o amor, a justiça, a misericórdia, nem pensar.
Porque falo disso? Porque acredito que todos acompanham redes sociais, e por ocasião do dia dos pais, houve uma polêmica em relação a uma pessoa conhecida do meio artístico, que fez sua escolha, opção de vida, usando de sua liberdade, saindo dos padrões impostos, que uma família deve ser composta de homem, mulher e filhos. Não estou aqui para dizer o que está certo ou errado, mas para ajudar a pensar que em pleno século XXI em que vivemos, não dá para fechar os olhos e fingir que não há outros padrões que saem do tradicional. O conceito de família mudou. É preciso reconhecer.
Infelizmente o conceito de família tradicional, não é a única, por isso precisamos respeitar outros conceitos. Não somos obrigados a aceitar, mas somos obrigados a respeitar a escolha de cada um.
Se nos dias de hoje pessoas do mesmo sexo se unem, adotam crianças, e lhes dão todo amor e carinho, é porque os casais que se dizem tradicionais não se comportaram conforme a vontade de Deus para, educar, dar amor, um lar, como deveria. Quando surgem pessoas dispostas a fazerem o que os “certinhos deveriam fazer e não fizeram”, há criticas, discriminação, daqueles que querem dar um lar, carinho, amor, atenção. Esta é a hipocrisia social e religiosa que vivemos nos dias de hoje. Talvez aqueles que estão fora dos padrões agem e faz muito mais a vontade de Deus, do que aqueles que vivem na Igreja, com o terço na mão, a Bíblia em baixo do braço, e acham que estão arrasando, já estão salvos. Não é bem assim. Estão enganados.
Padrões, fé, não significam nada, quando não há coerência com a prática na vida, no cotidiano. Tenho certeza que Jesus acolhe estes que lutam para viver de forma honesta, sem hipocrisia, assumem o que são, e por isso são os marginalizados de hoje. Estes são os preferidos de Deus hoje.
No Dia do encontro com Deus, o que ele nos perguntará não é quantas vezes fomos à Igreja, o quanto rezamos, mas sim, o quanto amamos, o quanto buscamos conformar a nossa vida, com sua vontade. Isto contará.
É a fé da prática, com obras de misericórdia que nos leva a viver o Reino de Deus no hoje da história, e a prolongar para a vida eterna (cf. Mt 25,31-46). Não os padrões falidos, ou as falsas escolhas para agradar este ou aquele e ser infeliz o resto da vida.
Acredito na família tradicional, sincera honesta, mas acredito também, nos novos modelos de famílias de hoje que buscam viver a vontade de Deus dentro de suas escolhas.
